Novos desafios para os pais durante as fases de infância e adolescência: um olhar do Psiquiatra sobre o tema e algumas recomendações
Dr. Luis Felipe de Oliveira Costa
Psiquiatra Coordenador da Equipe de Retaguarda e Ambulatório Hospital Sepaco

Quem é pai ou mãe sabe. Não está fácil lidar consigo mesmo neste momento, quem dirá com os filhos. Desde o início de 2020, as queixas têm sido praticamente as mesmas em meu consultório: pais cansados, irritados, com aumento da carga de trabalho (visto que além do home-office, temos as tarefas domésticas), ansiedade, mudanças mais frequentes de humor, ufa… São muitas as mudanças em nossas vidas!
Uma primeira perspectiva pode trazer um aspecto de realidade mais sombrio. Porém, ao analisarmos com cuidado, o momento pode representar uma oportunidade de mudanças positivas na vida de todos nós e, portanto, das famílias.
Penso que o primeiro cuidado deve estar focado em nós mesmos (pais e mães). Pergunte-se se realmente você está bem, se tem algo que gostaria de falar e não consegue, se a sua ansiedade tem extravasado, se possui algum medo mais intenso atualmente, como vai o seu relacionamento ou se está mais irritado que o normal. Caso responda sim a alguns desses questionamentos, vale a pena procurar ajuda.
O fechamento das escolas, a necessidade de distanciamento físico e a proibição de atividades culturais presenciais estão gerando impactos acadêmicos, sociais, econômicos e psicológicos. Os pais de crianças e adolescentes, sobrecarregados pelas mudanças de vida exigidas pela nova situação, têm também de gerenciar o dia a dia de seus filhos, ao tentar minimizar o impacto das atuais circunstâncias na saúde mental das crianças e dos adolescentes (1, 2, 3).
Ainda são escassos os estudos sobre o efeito do distanciamento social na vida dos adolescentes e crianças, no entanto é impossível separar suas experiências das de suas famílias. A separação dos entes queridos, dos amigos, professores, a perda de liberdade, a incerteza sobre a doença, as mudanças nas atividades de rotina, a falta de espaço físico em casa, os aspectos ligados à piora financeira da família e a interrupção das aulas podem causar mudanças no comportamento e nos hábitos de vida, podendo provocar danos à saúde dos adolescentes (4, 5).
Evidências sugerem que, quando as crianças e os adolescentes estão fora da escola (por exemplo, fins de semana e férias), são fisicamente menos ativos, têm maior tempo de tela, problemas de sono e pioram a alimentação, o que resulta em ganho de peso e perda da aptidão cardiorrespiratória (5).
Estamos praticamente no final do primeiro semestre de 2021. E parece que pelo menos regionalmente (Brasil) não há uma perspectiva próxima de resolução em relação ao contágio pelo coronavírus. Mesmo com a vacinação completa nos indivíduos maiores de 18 anos, o vírus ainda permanecerá circulante em grande parte da população, ou seja, a curva de declínio possivelmente tenha um desenho gradual longitudinal (esperamos de forma esperançosa algo melhor para o ano que vem). Essa informação é particularmente importante no sentido de fazermos o nosso melhor agora. Podemos escolher entre uma adaptação positiva ao problema ou permanecer imersos na desesperança. Em qual delas você se encaixa?
A fim de ajudar os pais, filhos e familiares, trago nos tópicos coloridos abaixo algumas recomendações importantes (6).

Em resumo, os tempos atuais são de fato desafiadores aos pais, crianças e adolescentes. Como dito anteriormente, existem algumas sugestões que podem ser seguidas. Para termos êxito em nosso caminho, é fundamental nos questionarmos como de fato está a nossa própria saúde mental. Caso não esteja no seu melhor, não hesite em procurar auxílio dos profissionais de saúde mental, que incluem os psicólogos e médicos psiquiatras. No Sepaco esse serviço está disponível aos colaboradores que assim necessitarem, através da rede de ambulatório. Por fim, desejo que todos nós possamos vencer em muito breve esta etapa histórica da humanidade.
Referências bibliográficas
- Huremović D. Social distancing, quarantine, and isolation. In: Huremović D, ed. Psychiatry of pandemics. Cham: Springer; 2019. p. 85-94.
- Brooks SK, Webster RK, Smith LE, Woodland L, Wessely S, Greenberg N, et al. The psychological impact of quarantine and how to reduce it:rapid review of the evidence. Lancet. 2020 Mar; 395(10227): 912-20. DOI:https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30460-8
- Liu JJ, Bao Y, Huang X, Shi J, Lu L. Mental health considerations for children quarantined because of COVID-19. Lancet Child Adolesc Health. 2020 May; 4: 347-9. DOI: https://doi.org/10.1016/S2352-4642(20)
- Wang G, Zhang Y, Zhao J, Zhang J, Jiang F. Mitigate the effects of home confinement on children during the COVID-19 outbreak. Lancet 2020; 39(10228): 945-947. DOI: 10.1016/S0140-6736(20)30547-X
- Wang G, Zhang J, Lam SP, Li SX, Jiang Y, Sun W, et al. Ten-Year Secular Trends in Sleep/Wake Patterns in Shanghai and Hong Kong School-Aged Children: A Tale of Two Cities. J Clin Sleep Med 2019; 15(10): 1495-1502. DOI: 10.5664/jcsm.7984
- Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência Disciplina de Psiquiatria da Infância e Adolescência Instituto e Departamento de Psiquiatria, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo Orientações para pais de crianças e adolescentes com problemas emocionais e comportamentais no contexto da pandemia COVID-19. Abril de 2020. Disponível em: www.psiquiatriafmusp.org.br.